Sobre recomeçar

Velhos caminhos

 

Pergunta rápida: se você dividir sua vida em diversas áreas (por exemplo, carreira, família, amigos, amor, etc.), qual delas você considera mais importante? Há quem diga que a família é o que mais importa, outros vão afirmar que os amigos são tudo para eles, e outros podem dizer que o foco principal é o relacionamento amoroso. Pois bem, para mim, a resposta sempre foi a carreira.

Para quem não sabe, sou formada em Psicologia e atuo na área de recursos humanos. Trabalhei por mais de dois anos em uma empresa, lidando com avaliação psicológica em processos de seleção de pessoas, e amava muito o que eu fazia. Depois, fui trabalhar em uma empresa mais próxima da minha casa, que pagava melhor e que me prometeu uma série de desafios profissionais, porém na real eles nunca aconteceram. Comecei a me sentir infeliz, muito infeliz mesmo. Mesmo assim, segui fazendo meu trabalho. Em dezembro do ano passado, devido a uma crise no mercado, fui demitida.

Não fiquei triste e nem tive receio. De posse de um currículo bom como o meu, seria fácil conseguir outro emprego. Estava tranquila. Comecei o ano confiante e cheia de esperança de que as coisas mudariam para melhor. Seria minha chance de recomeçar. Porém, o tempo foi passando e começou a me bater uma angústia muito grande, pois o processo de recolocação que eu achei que seria rápido estava se delongando muito mais do que eu esperava. Estava me sentindo desmotivada, desanimada, com a autoestima lá embaixo. Mesmo tendo família, amigos e namorado, pessoas queridas que me amam e me apoiam, estava infeliz como nunca estive antes. A área mais importante da minha vida era a única que não estava funcionando. Na minha cabeça, eu sabia que precisava recomeçar, mas não sabia como. Foi quando li este texto e tive uma epifania.

“A primeira lição sobre recomeços que aprendi ao construir este texto é: dizer adeus ao que deixaremos para trás de um jeito profundo é um cuidado fundamental e ajuda a recomeçar.”

Na ilusão de ter o controle sobre a situação, querendo provar para mim mesma que seria fácil dar a volta por cima depois da demissão, esqueci de elaborar o luto de ter fracassado na área mais importante da minha vida. Este era o meu problema. Por orgulho, não quis assumir que algo tinha ficado para trás. Tentei dar uma “sobrevida” à minha estabilidade profissional, mas na verdade o que eu precisava era assimilar, de verdade, que eu não tinha mais trabalho. A vida é feita de tropeços, e é só a partir dos tropeços que conseguimos levantar, simples assim. Talvez no início ainda cambaleando, ou tomando cuidado excessivo ao dar o próximos passo, mas sempre de pé e com a cabeça erguida.

Com tudo isso, aprendi que não é saudável depositar todas as expectativas em apenas um aspecto da vida, e sim que devemos manter o equilíbrio entre todos. Por isso, decidi investir nas outras áreas da minha vida que ficaram empoeiradas enquanto eu só lustrava a parte da carreira. Hoje a angústia não me acompanha mais e consigo ver, claramente e em termos práticos, o que é possível fazer para recalcular a rota: atualizar o currículo, acionar meus contatos, me preparar melhor para as entrevistas. Dar entrada no seguro desemprego, cortar gastos e guardar dinheiro. Aproveitar o tempo livre para ler, fazer atividades físicas, cuidar de mim.

Ok, fui demitida. Porém, isso não apaga toda a experiência anterior que eu tive na minha área, não diminui meu potencial de aprendizado e não me torna uma pessoa menos capaz que as outras. Tendo tropeçado, aprendi a caminhar novamente, a recomeçar. E recomeçar não significa começar do zero, como uma tábula rasa, mas sim começar de onde paramos, usando as experiências – positivas e negativas – a nosso favor. Aprendi com Almir Sater que  é preciso compreender a marcha para, então, tocar em frente. E que é preciso a chuva, para, só então, florir.

* Imagem retirada daqui

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7 comentários sobre “Sobre recomeçar

  1. Mari, que bela reflexão. E o mais legal é que isso te proporcionou um amadurecimento e tanto na vida. Que benção! É maravilhoso quando compreendemos que tudo pelo que passamos é necessário para o nosso engrandecimento espiritual. Tenho certeza de que tudo ha de se encaixar da melhor forma possivel. Boa sorte! 🙂

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  2. Pingback: 2015 começou | Frugalidades

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