Sobre o machismo

Machismo

Há algum tempo venho tendo mais contato com ideias feministas e consumindo esse tipo de conteúdo (lendo blogs como os maravilhosos Lugar de Mulher e Girls With Style, por exemplo). Desde então, comecei a me dar conta de quantos abusos nós mulheres sofremos diariamente simplesmente pelo fato de sermos… mulheres. Assim, tenho prestado muito mais atenção a como os homens com que convivo agem, de modo geral, e venho fazer aqui o meu relato.

Desde quanto tinha uns 11 anos eu me “acostumei” a ouvir cantadas na rua. Toda mulher (infelizmente) sabe o que é ter que mudar de lado na rua ou desviar de sua rota habitual para evitar esse tipo de assédio nojento. Lembro de uma vez em que estava voltando da escola e ouvi de dois caras o seguinte diálogo sobre mim: “Essa eu pegava fácil” “Hmm, não sei… Quem sabe se emagrecesse uns 10 kg”. Como se eu fosse um produto em uma vitrine esperando para ser comprado. Como se eu precisasse da aprovação de um zé ruela qualquer sobre o MEU corpo. Como se eu fosse obrigada.

Dando um salto no tempo, quando me mudei para Belo Horizonte descobri as ~maravilhas~ de utilizar o transporte público em uma capital. Fui “apresentada” ao manspreading e ao encoxamento pseudo justificado pela lotação dos ônibus. Vi uma mulher levantar a voz para um homenzinho de merda™ que a estava encoxando no ônibus, ouvir barbaridades dele (o famoso gaslighting, “Você é maluca”, e “Não preciso te encoxar… Minha mulher é muito mais gostosa que você”) e precisar lidar com a falta de empatia das outras mulheres em volta (“Se não quer que encostem nela, devia ter pegado um táxi”). Como se fosse normal ter alguém invadindo seu espaço, sua intimidade.

Trabalhei em uma empresa cujo diretor (mesmo sendo o único homem) praticava em TODAS as reuniões o manterrupting e sempre interrompia a fala da irmã (que tinha o mesmo cargo, diretora). Diretora essa que assumiu a parte de “pessoas” e passou a gerir os conflitos entre funcionários (“porque mulher é mais sensível pra essas coisas”). Enquanto procurava emprego, também já vi diversas vagas de Psicologia divulgadas como “exclusivamente femininas”, pelo mesmo motivo. Como se gênero fosse desculpa para justificar a falta de sensibilidade e empatia pelos problemas de outro ser humano.

Fuck it

Hoje trabalho em um ambiente que, antes da minha chegada, era exclusivamente masculino. Confesso que quando aceitei este desafio não imaginava que seria tão difícil. Em menos de dois meses, já ouvi diversas pérolas: “a reunião só demorou tanto porque tinha muita mulher (no caso, potenciais clientes)”; “fulano (cuja esposa está grávida de uma menina) passou de ‘consumidor’ a ‘fornecedor'”; “essa moça que você entrevistou tem experiência?” (sendo que sobre os homens que entrevistei antes, ninguém perguntou nada disso), etc..

Mas o que mais tem me incomodado é o que mais tarde eu descobri se chamar mansplaining. Se já não fosse desafiador o suficiente implantar um setor sozinha, entender as particularidades de um segmento totalmente diferente dos que já atuei anteriormente, ainda preciso lidar com caras que insistem em me explicar o óbvio. Que preferem conversar sobre minha área com meu chefe do que comigo mesma. Que tratam como “coincidência” o fato de eu, única mulher, receber o menor salário da empresa. Como se eu, simplesmente por ser mulher, fosse menos capaz.

Não quero que meus prazos sejam mais extensos ou que minhas metas sejam mais fáceis. Não quero que tenham receio de me delegar responsabilidades. Não quero que minha área seja vista como menos importante que as outras. Não quero que me excluam das atividades, das reuniões, das conversas por acharem que não vou “acompanhar”. Não quero que minha hora de trabalho valha menos que a de um homem. Não quero ouvir piadinhas machistas como se isso fosse normal. Sei que tenho um caminho longo pela frente, até conseguir conquistar meu espaço dentro da empresa e ser respeitada como a profissional que sou. Apesar disso, não quero tratamento diferenciado por ser mulher. Não quero privilégios, quero direitos.

Women = People

Não importa o quanto as pessoas tenham tido acesso à educação de qualidade, que tenham contato com tecnologias inovadoras e que trabalhem diariamente com conceitos puramente intelectuais. O machismo está enraizado em todos os setores da nossa sociedade, porém muitas vezes disfarçado em atos “sutis” do nosso dia a dia. Isso deve mudar! O machismo não só coloca as mulheres em um patamar inferior ao dos homens, como também nos joga umas contra as outras. E, por fim, o machismo não é prejudicial apenas às mulheres (apesar de ser muito mais). O machismo também prejudica os homens que desde cedo são treinados para se identificarem com comportamentos completamente equivocados, mas “masculinos por natureza”, e que por isso os disseminam ao longo da vida.

De fato, nenhum de nós está livre de cometer diariamente machismo ou qualquer outra forma de discriminação. Porém, tomar consciência dos privilégios que temos, desconstruir preconceitos e desenvolver a empatia deve ser um exercício diário. Por isso a importância de dar voz às mulheres – e às minorias em geral – para que ocupemos nosso espaço da forma como deve ser. Para que tenhamos cada vez mais oportunidades, para que possamos assumir cargos cada vez mais estratégicos e com salários justos. Para que sejamos ouvidas. Para que tenhamos vez.

Podemos mais* Imagens retiradas daqui, daquidaqui e daqui.

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4 comentários sobre “Sobre o machismo

  1. Só li verdades… Por coincidência pura, também tenho me ligado a estes temas de feminismo, lógico que considero algumas coisas muito radicais, mas acho que respeito é sempre o mais importante em qualquer relação. Enquanto não soubermos ensinar isso a nossos filhos, infelizmente a situação pouco mudará.

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  2. Sim, Ju… A minha percepção é que o caminho, para a mulher, é sempre mais espinhoso que para o homem (como a primeira figura ilustra muitíssimo bem). Mas não é por isso que vamos desistir né? Temos que nos dar as mãos e seguir unidas nessa luta que é de todas nós! 🙂

    Bjs sua linda! ❤

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