BEDA #5 – O que eu aprendi com a escola pública

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Eu estudei em escola pública durante toda minha vida, desde o jardim de infância até o ensino superior. Meu primeiro contato com a educação formal se deu através de uma escola municipal, na minha cidade no interior. Em seguida, ingressei em uma escola estadual onde cursei todo o ensino fundamental (na época, da 1ª à 8ª série). Passei no processo seletivo de uma escola técnica federal, onde cursei o ensino médio junto com um curso técnico. Depois do tão temido vestibular, vim para Belo Horizonte estudar em uma universidade federal.

Na escola municipal, tive os primeiros contatos com figuras de autoridade que não eram meus pais. De repente, me vi obrigada a obedecer adultos que eu não conhecia, usar uniforme, comer e brincar com hora marcada, andar em fila, pedir autorização para levantar e ir ao banheiro (sempre me lembro desse conto do Marcelo Coelho quando penso nisso). Também tive contato com os primeiros preconceitos (“não anda com ela, ela tem piolho”), apanhei de crianças mais velhas, sofri bullying. Aprendi a ler e a escrever, aprendi que existe banheiro “de menina” e “de menino”, aprendi alguns palavrões, mas que eu não podia falar.

Playground Colorido para crianças:

Fui “adiantada” para a primeira série do Ensino Fundamental (alguma coisa a ver com a minha data de nascimento, não sei bem) e desde cedo me acostumei a ser sempre uma das mais novas da sala. Já não tinha mais hora da soneca e nós brincávamos muito menos. Um dia, gastei o dinheiro do lanche comprando uma rifa, sem nem sequer saber o que era “rifa”. Só eu e outra menina da sala – a mais bonita e popular – compramos a tal rifa. Quando a professora foi entregar o prêmio, ela perguntou pro restante da sala quem eles achavam que havia ganhado e só um menino, o mais rejeitado e excluído, achava que tinha sido eu. Então, contrariando todas as expectativas – eu sempre fui um azarão mesmo -, a professora pediu para que ele viesse me entregar o prêmio, já que eu é quem tinha ganhado a rifa. Rá, um belo plot twist.

De 1ª a 8ª série, a gente teoricamente deve aprender os principais conceitos de língua portuguesa, matemática, ciência, história e geografia (eu também tinha aula de ensino religioso, antes da qual sempre rezávamos um Pai Nosso e uma Ave Maria – os evangélicos ficavam em silêncio enquanto isso). Convivi com problemas típicos do ensino público no Brasil: greves de professores, merenda ruim, falta de material, etc.. Os professores não tinham condições de controlar dezenas de crianças e adolescentes eufóricos e ativos, pois estavam cansados de suas jornadas duplas, às vezes triplas, para compensar os salários baixos. As crianças e adolescentes estavam cansadas de um modelo educacional que não muda desde a Idade Média. Todo jovem tem sede de descobrir as coisas na prática, de estar ao ar livre, de estímulos audio-visuais, e essas coisas não combinam com as salas de aula fechadas, o quadro e o giz. Frequentemente havia episódios de indisciplina, violência, bullying. É muito difícil aprender – absorver e memorizar conteúdos – nessas condições.

Tive sorte de cursar o Ensino Médio na melhor escola pública da cidade. Como todo ambiente que resulta de um processo seletivo, havia muito menos diversidade – pouquíssimos negros, por exemplo – que na escola anterior . Os professores eram mais bem remunerados, eram experts em suas áreas de atuação, alguns com mestrado e doutorado. Eles nos enxergavam muito mais como indivíduos, como sujeitos, como autônomos. Ainda existiam normas e proibições, claro (se pegassem alguém namorando na escola, ligavam para os pais – todo mundo morria de medo disso), mas foi lá que aprendi a ter crítica em relação aos conteúdos que eram passados e ao próprio modelo de ensino.

Às vezes me arrependo de não ter tirado mais proveito da educação que recebi nessa escola, pois confesso que eu era meio relapsa com os estudos. Sobretudo, sei que fui muito privilegiada. Por mais que a rotina do ensino médio + curso técnico + estágio fosse puxada, eu não tinha que trabalhar 44h semanais para complementar a renda da minha família, como a maioria dos jovens do nosso país. Meus pais me garantiam o básico necessário para que eu me dedicasse somente à escola. Assim, consegui estudar e passei de primeira no vestibular para uma universidade federal (de novo, isso se chama privilégio. Não tem nada a ver com meritocracia, não podemos esquecer em momento algum disso).

Posso não ter absorvido grande parte dos conteúdos passados em sala de aula (Como é que se multiplica frações? Qual a capital do Camboja? Quanto é um mol? Se algum dia aprendi, hoje não me lembro mais), mas com certeza aprendi muito nesses anos todos de escola pública. Aprendi a conviver com as diferenças de raça, religião, classe social. Aprendi sobre desigualdade e privilégios. Aprendi sobre amizade e sobre amor. Aprendi sobre respeito e sobre tolerância. Aprendi a andar com meus próprios passos. Aprendi sobre a vida real, com todas as suas dores e delícias.

Lamento muito que nossa educação pública não seja de qualidade, e isso é algo pelo qual todos nós devemos lutar – votando certo, nos informando, cobrando os responsáveis, nos voluntariando para ajudar. Mas valorizo as lições que aprendi nos bancos da escola pública, mesmo não estando nas cartilhas e nos livros: são valores que carregarei para sempre comigo.

* Imagens retiradas daqui, daqui, daqui e daqui.

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3 comentários sobre “BEDA #5 – O que eu aprendi com a escola pública

  1. Eu lamento a falta de diversidae na minha formação, mas eu entendo o medo que meus pais tinham do ensino público, principalmente onde eu cresci: todo mundo sabia que o crime corria solto dentro das escolas e no fim das contas, eu acabei vendo que isso era mesmo verdade, infelizmente. Levou muito tempo pra eu entender a importância da diversidade e de dar oportunidades iguais para todos, e hoje vejo como isso teria me beneficiado como ser humano. Mas nunca é tarde pra criar empatia e começar a entender o mundo um pouco melhor. Com certeza o Brasil seria um lugar melhor se a educação pública tivesse qualidade de verdade e todos os jovens em idade escolar tivessem acesso e se mesclassem mais.

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