Sobre ser gorda

Há alguns dias vi um ensaio maravilhoso no Papo de Homem, onde a maravilhosa da Luísa Toledo fala sobre a experiência de ser fotografada nua mesmo não tendo um corpo dentro dos padrões:

O caminho dos nossos pequenos prazeres desprazeirosos, das nossas escolhas neuróticas pelo sofrimento diário de adequação, pede desconstrução! E tirar a roupa em uma sociedade de tabus, mostrar o corpo desconstruído da necessidade de agradar pode ser revolucionário, falo de uma revolução interna mesmo, não pretendo doutrinar ninguém.

Com o Jan, acredito que o exercício foi libertador, não me vi pelas lentes dele, consegui pela primeira vez em uma sessão de fotos me mostrar como sou, o que tenho de mais íntimo, minha casa, minhas cores, curvas, marcas e resquícios do caminho percorrido até aqui, meu corpo real que atravessa o olhar em uma sessão que simboliza o prazer de se sentir em casa dentro de si.

Mesmo com tanta maravilhosidade em forma de postagem, me deparei com um comentário (eu sei, não deveria ler os comentários, mas o Papo de Homem costuma ser um lugar chorume-free, então dei uma chance) que dizia simplesmente: “cs tão ligado que obesidade é uma doença né? altamente combatida pelo OMS (sic)”. 

Cara, como pode, né? Uma pessoa – ou várias, porque depois se seguiram outros comentários igualmente ofensivos e até piores – olhar para outra pessoa e só enxergar o que quer, no caso, um corpo doente. A Luísa, no caso uma mulher gorda, estava dando a cara a tapa e se colocando para o mundo de forma corajosa e empoderada, por se mostrar simplesmente como ela é. E vem um cara e reduz toda essa experiência apenas a “uma doença combatida pela OMS”. Ter me deparado com esse comentário foi algo que mexeu muito comigo, porque me jogou na cara o que é, para nossa sociedade, ser gordo, mas mais ainda, ser uma mulher gorda.

O corpo de uma mulher gorda nunca vai ser algo secundário. Ele sempre virá em primeiro lugar, antes mesmo de outros aspectos de sua personalidade, de sua competência profissional, de suas vontades, de sua essência, enfim, de quem ela é. Para a sociedade em que vivemos, o fato de uma mulher se sentir bem na própria pele é algo inaceitável. Se um corpo não se enquadra nos padrões, é preciso combatê-lo, moldá-lo, mutilá-lo e, finalmente, adequá-lo.

Não se engane, a preocupação com a saúde do gordo é uma falácia. Alguns problemas de saúde podem estar associados ao excesso de peso, mas obesidade não é sinônimo de doença, assim como magreza não é sinônimo de saúde. Sob o pretexto de cuidar da saúde física de uma pessoa, esse tipo de comentário pode contribuir para piorar a saúde mental dela. Como diz a Paola Altheia, do Não Sou Exposição:

A obesidade é um problema de saúde. No entanto, não podemos confundir: tratar a doença com atacar o portador. Pessoas obesas têm direito de sair em público, se amar, amar aos outros, fazer conquistas, namorar e…. DANÇAR! A vida não para porque estamos com excesso de peso. Todos os seres humanos têm sentimentos. Todos os seres humanos devem ser respeitados.

Para finalizar e tirar um pouco da bad deixada pelo comentário gordofóbico, deixo vocês com mais um ensaio maravilhoso onde eu só enxergo amor:

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé, atividades ao ar livre, água, close-up e natureza

* Imagens: 1 | 2 | 3

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BEDA #22 – Vision Board: o que é e como fazer o seu

So are you ready for the party tomorrow night? I just finished filming the Vision Board Party video for the Late Night Crafty Club and I am so excited for you to watch it. I build my 2017 Goals board step by step, and I also share my different formats of building vision pages in my planners (with sneak peeks of my Reset Your Life planner) and share my vision books, the most powerful tool I have used for weight loss/fitness. Yes, I get personal and share some of my private thoughts and ideas ...:

O que é?

Um vision board nada mais é do que um quadro onde você coloca várias imagens e frases inspiradoras, que vão te motivar e atrair boas energias para que você atinja seus objetivos. Baseada na Lei da Atração, essa ferramenta parte do princípio de que visualizar seus sonhos faz com que o Universo os traga de fato para sua vida.

Mesmo que você não acredite nesse teoria, concentrar todos os seus sonhos em um mesmo lugar e tornar isso uma fonte de inspiração parece uma boa ideia, você não acha?

Como fazer?

1. Escolha um lugar
O ideal é que o seu vision board esteja em um lugar visível e que você tenha fácil acesso. Algumas ideias interessantes:
• Um quadro de cortiça onde você possa colar as fotos e frases com alfinetes (ou de metal, onde possa colar com ímãs);
• Um scrapbook onde além de colar coisas você possa escrever;
• Uma pasta no Pinterest, para salvar fotos e frases inspiradoras (foi o que eu achei que funciona melhor para mim);
• Uma montagem que pode ser usada como papel de parede do seu computador.

2. Trace objetivos
Faça um exercício de imaginar como seria se você tivesse a sua vida dos sonhos. Como seria sua aparência? Sua rotina? Imagine tudo o que você gostaria de atrair para sua vida. Agora, coloque todas essas ideias no papel, em forma de afirmações ou objetivos que você gostaria de alcançar.

3. Busque inspirações
Você pode buscar fotos inspiradoras em revistas, na internet (o Pinterest tá cheio de coisas legais), além de poder fazer você mesmo as ilustrações e frases que colocará no seu vision board. Como o exercício de visualização tem como objetivo tornar seus sonhos mais reais aos seus olhos, capriche em imagens que vão te deixar com vontade de correr atrás do que você almeja!

4. Seja criativo
O mais legal do vision board é você deixá-lo com a sua cara, por isso, vale usar de tudo: adesivos, ímãs, lettering, washi tape e o que mais sua imaginação permitir. O importante é deixar tudo muito bonito e agradável aos seus olhos, pois a intenção é que você se inspire mais a cada vez que olhar para ele. 

5. Revise e renove sempre
É importante revisar seu vision board com frequência, pois, à medida que você for alcançando seus objetivos talvez não faça mais sentido mantê-los ali. Também é possível que, ao longo do tempo, você vá mudando de ideia e já não almeje mais as mesmas coisas. Por isso, esteja preparado para substituir uma foto por outra, acrescentar ou tirar coisas sempre que sentir vontade. O vision board, assim como seus sonhos e objetivos, vir do seu coração ❤

* Imagem retirada daqui

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BEDA #20 – Como aproveitar melhor a faculdade

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A época da faculdade é uma das fases mais legais, pois se trata justamente do período em que deixamos de ser adolescentes e nos tornamos adultos. Além disso, todo o clima de experimentação e aprendizado vão ser levados para a vida toda. Como já passei dessa fase, trago algumas dicas que gostaria de ter recebido enquanto estava na faculdade:

Faça amigos

Na faculdade, por terem escolhido o mesmo curso, a chance de você ter mais interesses em comum com seus colegas é grande. Mas além da sua turma, existem vários outros grupos onde você pode fazer amigos, como bandas, grêmios, times esportivos… A dica principal é: circule entre diferentes ambientes e conheça pessoas. Muitos dos amigos que a gente faz na faculdade são para a vida toda!

Vá a festas

As festas de faculdade são comuns, não só no campus, mas em repúblicas ou mesmo na casa de algum colega. Além de serem uma ótima oportunidade de conhecer pessoas, são também uma forma de espairecer a cabeça dos trabalhos e provas. Depois que formar e ingressar no mercado de trabalho, as chances de sair com seus amigos para se divertir a noite toda vão se tornando cada vez mais raras, então aproveite enquanto pode acordar tarde durante a semana. Só não abuse, ok? Responsabilidade acima de tudo.

Estude o que você gosta

No Ensino Médio somos obrigados a estudar uma série de assuntos que não nos interessam, certo? Na faculdade, apesar das matérias obrigatórias, grande parte da grade curricular nós é que escolhemos. Assim, é possível direcionar o curso para as áreas que são do seu interesse e se dedicar ao que você realmente gosta de estudar. Até de outros cursos dá pra puxar matérias, o que é ótimo.

Aprenda a se virar

No meu caso, a época de faculdade coincidiu com sair da casa dos meus pais e morar sozinha, o que exigiu de mim aprender coisas que até então nunca havia precisado, como cozinhar, arrumar a casa, lavar roupas, controlar as finanças, pagar contas, etc.. Mesmo que este não seja o seu caso, você pode colocar como meta aprender a se virar na vida adulta, porque cedo ou tarde isso vai ser exigido de você. É legal pedir ajuda de quem já passou por isso antes, mas caminhar com as próprias pernas também é um exercício de autoconhecimento interessante.

Faça estágios

Na faculdade, com tantas distrações, pode ser que você vá se deixando levar e acabe perdendo algumas oportunidades. Minha dica é começar a procurar estágios desde o início do curso. Pode ser alguma atividade de pesquisa, extensão, empresas juniores, monitorias, enfim, coisas que te ajudem a colocar em prática o conhecimento teórico das aulas. Essas experiências extraclasse são excelentes para te ajudar a entender qual área você realmente quer seguir e agregam valor ao seu currículo, caso queira começar sua carreira no mercado de trabalho tradicional. Sério, vale a pena começar cedo.

Essas são algumas das dicas que eu gostaria de compartilhar com quem está vivendo essa fase. Apesar dos perrengues e noites viradas estudando, é uma fase que eu sinto falta e que acho que vale a pena aproveitar bastante! 🙂

* Imagem retirada daqui

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BEDA #18 – 30 fatos sobre mim

Sorriso:

Já vi várias pessoas respondendo essa TAG – dá pra chamar de TAG? – que consiste em contar 30 curiosidades sobre si mesmo e resolvi responder também. Gosto desse tipo de post porque vocês conseguem conhecer um pouco mais sobre mim:

1. Quando era mais nova eu dizia que odiava gatos, até que eu adotei a Luna, minha pretinha, através de uma ONG. Hoje sei que gatos são lindos e muito amorosos (quem diz que não gosta é porque não conviveu com um o suficiente).

2. Adoro todo tipo de coisa mística, como astrologia, feng shui, tarot, cristais, filtros dos sonhos, velas, incensos, banhos de ervas, rituais, etc.

3. Tenho uma tatuagem do meu signo e uma do meu arcano favorito do tarot, cada uma em um pulso, que pra mim é o lugar do corpo onde a vida mais “pulsa”.

4. Sou uma pessoa de poucos, mas bons, amigos. Demoro a pegar confiança nas pessoas, mas quando isso acontece eu me torno extremamente leal.

5. Apesar de ter melhorado muito, ainda sou uma pessoa muito ansiosa. Tenho a péssima mania de sofrer por antecipação.

6. Só vale a pena manter algo na minha vida enquanto fizer sentido, enquanto eu tiver uma identificação profunda com aquilo. Senão, é descartável. Isso vale para coisas e pessoas.

7. Desde 2013 aderi a um estilo de vida minimalista, então não acumulo mais nada. Doei – e periodicamente faço uma limpa pra doar de novo – muitas das coisas que não usava mais, como roupas, sapatos, maquiagens, etc. Acredito que as coisas têm energia e ela precisa circular.

8. Gosto muito de ler, mas só consigo terminar um livro quando realmente estou curtindo. Por isso, já comecei a ler vários clássicos e best sellers renomados e desisti no meio.

9. Acho que a vida é curta demais para perder tempo com coisas que não valem a pena, que não fazem os olhos brilharem e o coração bater mais forte. Talvez eu seja um pouco hedonista. Talvez seja culpa da minha lua em touro.

10. Sou muito crítica com os outros, mas principalmente comigo mesma. Gosto de sempre dar o meu melhor em tudo o que faço, senão, é melhor nem fazer.

11. Sempre tive essa inclinação, mas há algum tempo tenho me envolvido mais de perto com pautas feministas e sociais. Sinto como se eu tivesse tirado um véu que cobria meus olhos e agora nunca mais vou voltar a ver o mundo como antes.

12. Eu AMO Friends, é minha série preferida da vida! Sei praticamente todas as falas de todos os episódios. Quando termino de assistir as 10 temporadas, geralmente começo de novo.

13. Fora isso, não tenho paciência pra séries. Nunca vi Game of Thrones, The Walking Dead, Breaking Bad, Narcos, House of Cards e essas outras séries que todo mundo assiste. Normalmente, fico de fora das rodinhas de conversa.

14. Também não gosto de Harry Potter, Senhor dos Anéis, Crônicas de Nárnia e essas sagas que a maioria das pessoas gosta. ~Diferentona~

15. Eu não acompanho futebol europeu, mas AMO futebol brasileiro. Esse ano finalmente pude assinar o canal Premiere para assistir a todos os jogos que eu quiser

16. Sou atleticana fanática, por influência do meu pai. Quando assisti a um jogo no estádio pela primeira vez, senti uma identificação inexplicável com a torcida, um sentimento de pertencimento que nunca havia sentido antes.

17. Eu sempre fui de humanas. Na escola, gostava só de história, inglês e redação. Cheguei a entrar para um grupo que se chamava “Ágora”, para estudar e discutir sobre filosofia.

18. Sempre estudei em escola pública, desde a pré-escola até a universidade. Isso me deu uma noção de diversidade da qual sinto falta nos meios que frequento hoje em dia. A gente sabe que educação e oportunidades de desenvolvimento não são bens universais e irrestritos, infelizmente.

19. Meu gosto musical é bizarramente eclético. Gosto de vários estilos em pé de igualdade, como rock, pop, sertanejo, pagode, axé, funk, MPB. O conceito de “música ruim” é bastante relativo para mim.

20. Sou muito tímida hoje em dia, mas era bem pior há uns anos atrás. Eu tinha pavor de apresentar trabalhos ou falar qualquer coisa em público. Hoje já sou bem mais de boa com isso, apesar de ainda não gostar muito.

21. Tenho uma memória muito sensorial: associo cheiros a lugares, músicas a pessoas, gostos a momentos, enfim. Isso é perigoso porque posso deixar de gostar de uma coisa por associar inconscientemente a outra que não gosto (tipo quando você coloca sua música favorita como despertador).

22. Completei 25 anos no último dia 25 de outubro. 1/4 de século, check.

23. Minha comida favorita da vida é cheeseburger com batata frita. Amo demais!

24. Acompanho e assisto vários youtubers diariamente, mas minhas favoritas são: Karol Pinheiro, Niina Secrets, Foquinha, Lia Camargo e Maíra Medeiros. Além das dicas de beleza, gosto da forma como elas falam sobre questões do dia-a-dia.

25. Tenho duas irmãs e um irmão, todos mais velhos que eu (sim, sou a filha caçula).

26. Tenho curso técnico em moda e até cheguei a estagiar na área quando era adolescente. Eu tinha aulas de desenho, modelagem e costura, mas hoje não me lembro nem como se liga uma máquina de costura mais.

27. Saí da casa dos meus pais com 17 anos, quando vim para BH cursar a faculdade. Acho que isso foi fundamental para que eu aprendesse a me virar na vida adulta.

28. Conheci meu namorado na faculdade, ficamos depois de duas semanas e nunca mais nos desgrudamos. Estamos juntos há oito anos e há três morando juntos.

29. Durante toda minha adolescência eu colecionei revistas Capricho e, depois de adulta, Gloss e Glamour. Hoje em dia, não consumo mais revistas “femininas” por não concordar com a forma que estimulam padrões de beleza inatingíveis.

30. Apesar de saber que estamos em constante evolução e desenvolvimento, hoje em dia me sinto muito mais orgulhosa do meu jeito de ser do que antigamente. Na real, eu gosto muito de ser quem eu sou. ❤

Bom, esses foram os 30 fatos sobre mim que provavelmente vocês não sabiam. Gosto de dividir algumas coisas da minha vida com vocês pois assim vocês conhecem um pouco mais sobre quem escreve o blog e nós ficamos mais próximos 🙂

* Imagem retirada daqui

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BEDA #17 – Sobre enfrentar medos

"Seja para os que fogem ou para os que buscam, há um retorno, ainda que impreciso, a um lugar bem conhecido." Érico Verissímo:

Há alguns dias, tive uma reunião importante com meu chefe (não meu chefe direto, com quem tenho mais proximidade e por isso me sinto à vontade, mas com o diretor da empresa). Ele não é uma pessoa exatamente fácil de se lidar e, justamente por isso, me sentia muito intimidada por ele. Na véspera da conversa, tive uma crise de ansiedade por causa do medo que sentia de – adivinhem? – perder o controle emocional na frente dele. Ou seja, por medo de perder o controle, acabei perdendo o controle antes mesmo que qualquer coisa acontecesse.

Acontece que nossa conversa foi ótima, muito melhor do que eu esperava. E de tudo isso, tirei uma lição importante: nós precisamos enfrentar nossos medos. Não estou falando de correr riscos desnecessários, claro. Mas nesse caso, o que de pior poderia acontecer? Eu não deveria ter me preocupado tanto e sofrido por antecipação. Ter tido a coragem de conversar francamente com meu chefe, ouvir o que ele tinha para me dizer e falar o que eu estava sentindo foi uma das melhores decisões que já tomei na minha carreira.

A verdade é que precisamos entrar em contato com o que nos intimida mais vezes. Explorar o medo, entender porque ele nos assusta tanto e enfrentá-lo. Às vezes o medo se torna uma barreira entre nós e nossos sonhos, e somente enfrentando o que nos assusta é que conseguimos quebrá-la. Assim, da próxima vez que nos deparamos com uma situação parecida, ela já não causará o mesmo impacto em nós.

Pode parecer uma bobagem à primeira vista, mas essa forma de ver as coisas faz muito sentido. Você tem medo de ter uma conversa difícil com quem quer que seja? Vá lá e converse. Ouça o que o outro tem a dizer e não perca a oportunidade de se abrir também. Você tem medo de falar em público? Procure se envolver em situações que exijam essa habilidade. Se ofereça para dar uma palestra, presidir uma reunião, fazer uma apresentação importante. Quanto mais nos expomos às contingências, mais fácil se tornará lidar com elas.

A vida é maravilhosa quando não se tem medo dela. – Charles Chaplin

* Imagem retirada daqui

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BEDA #13 – Uma carta para a eu do passado

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Querida Mari,

Oi, eu sou você daqui a 10 anos. Eu sou você depois de passar pelas dificuldades e incerteza da adolescência. Eu sou você depois de conhecer um mundo além dos limites da sua cidade do interior. Eu sou você depois de superar grandes adversidades e hoje posso dizer: nós sobrevivemos.

Muitas pessoas passaram pela nossa vida nesses 10 anos, muitas mesmo. Algumas permanecem até hoje, outras não mais. Dessas, algumas deixaram saudades, outras não. Com o tempo, você vai aprender a distinguir as pessoas que merecem ficar do seu lado, e se afastar das que não querem o seu bem. Isso é uma coisa interessante: nesse tempo que se passou, você aprendeu a se afastar, desapegar, deixar ir. Entendeu que esse é o ciclo natural da vida e não tem porque manter algo que não te empurra pra frente.

Não vou mentir para você, passar por tudo isso não foi fácil. Você se deparou com momentos em que precisou ser forte, levantar a cabeça e tomar uma decisão. Foi preciso sair de sua zona de conforto várias vezes e enfrentar o que antes você temia. Mas isso te fez muito bem, sabe? Te tornou mais corajosa, mais dona do seu destino.

Muitas coisas boas fizeram parte da sua história nesses anos. Você encontrou muitos motivos pelos quais continuar dia após dia vale a pena. Você encontrou amigos que te ajudaram quando você precisou e mestres que te ensinaram lições valiosas. Você aprendeu a ouvir seus pais com empatia e carinho, inclusive quando não concorda com eles. Você entendeu o verdadeiro significado da palavra família.

Você deixou de lado muitos dos rótulos em que você teimava em se encaixar. Não, você não precisa se encaixar. Você não precisa agir da forma que as pessoas esperam que você aja. Você não precisa mudar quem você é para agradar a outras pessoas. Claro que isso é um processo e nunca acaba, mas te garanto que ao longo do tempo foi ficando mais fácil.

Hoje, Mari, você tem um relacionamento que ultrapassa manuais de conquista e te permite se apaixonar todos os dias pelo mesmo homem. Assim, sem dificuldade nenhuma, simplesmente pelo fato de ter do seu lado alguém que você admira em todos os sentidos. Você descobriu sua “vocação” e descobriu que pode trabalhar com o que ama, com propósito, com paixão. Você adotou a Luna, uma gatinha preta que te ensinou a ver a vida com mais leveza e a cuidar de outro ser com o mesmo amor que cuida de si mesma.

Se eu pudesse te dar um único conselho, seria: dê tempo ao tempo. As suas dificuldades não serão as mesmas para sempre. Você vai mudar, o mundo vai mudar, e as coisas vão entrando nos eixos aos poucos. Você tem uma força interior absurda, não deixe nunca que alguém te convença do contrário. Você vai ser feliz, apesar de tudo. Nós vamos. ❤

Com amor,
Mari

* Imagem retirada daqui

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BEDA #5 – O que eu aprendi com a escola pública

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Eu estudei em escola pública durante toda minha vida, desde o jardim de infância até o ensino superior. Meu primeiro contato com a educação formal se deu através de uma escola municipal, na minha cidade no interior. Em seguida, ingressei em uma escola estadual onde cursei todo o ensino fundamental (na época, da 1ª à 8ª série). Passei no processo seletivo de uma escola técnica federal, onde cursei o ensino médio junto com um curso técnico. Depois do tão temido vestibular, vim para Belo Horizonte estudar em uma universidade federal.

Na escola municipal, tive os primeiros contatos com figuras de autoridade que não eram meus pais. De repente, me vi obrigada a obedecer adultos que eu não conhecia, usar uniforme, comer e brincar com hora marcada, andar em fila, pedir autorização para levantar e ir ao banheiro (sempre me lembro desse conto do Marcelo Coelho quando penso nisso). Também tive contato com os primeiros preconceitos (“não anda com ela, ela tem piolho”), apanhei de crianças mais velhas, sofri bullying. Aprendi a ler e a escrever, aprendi que existe banheiro “de menina” e “de menino”, aprendi alguns palavrões, mas que eu não podia falar.

Playground Colorido para crianças:

Fui “adiantada” para a primeira série do Ensino Fundamental (alguma coisa a ver com a minha data de nascimento, não sei bem) e desde cedo me acostumei a ser sempre uma das mais novas da sala. Já não tinha mais hora da soneca e nós brincávamos muito menos. Um dia, gastei o dinheiro do lanche comprando uma rifa, sem nem sequer saber o que era “rifa”. Só eu e outra menina da sala – a mais bonita e popular – compramos a tal rifa. Quando a professora foi entregar o prêmio, ela perguntou pro restante da sala quem eles achavam que havia ganhado e só um menino, o mais rejeitado e excluído, achava que tinha sido eu. Então, contrariando todas as expectativas – eu sempre fui um azarão mesmo -, a professora pediu para que ele viesse me entregar o prêmio, já que eu é quem tinha ganhado a rifa. Rá, um belo plot twist.

De 1ª a 8ª série, a gente teoricamente deve aprender os principais conceitos de língua portuguesa, matemática, ciência, história e geografia (eu também tinha aula de ensino religioso, antes da qual sempre rezávamos um Pai Nosso e uma Ave Maria – os evangélicos ficavam em silêncio enquanto isso). Convivi com problemas típicos do ensino público no Brasil: greves de professores, merenda ruim, falta de material, etc.. Os professores não tinham condições de controlar dezenas de crianças e adolescentes eufóricos e ativos, pois estavam cansados de suas jornadas duplas, às vezes triplas, para compensar os salários baixos. As crianças e adolescentes estavam cansadas de um modelo educacional que não muda desde a Idade Média. Todo jovem tem sede de descobrir as coisas na prática, de estar ao ar livre, de estímulos audio-visuais, e essas coisas não combinam com as salas de aula fechadas, o quadro e o giz. Frequentemente havia episódios de indisciplina, violência, bullying. É muito difícil aprender – absorver e memorizar conteúdos – nessas condições.

Tive sorte de cursar o Ensino Médio na melhor escola pública da cidade. Como todo ambiente que resulta de um processo seletivo, havia muito menos diversidade – pouquíssimos negros, por exemplo – que na escola anterior . Os professores eram mais bem remunerados, eram experts em suas áreas de atuação, alguns com mestrado e doutorado. Eles nos enxergavam muito mais como indivíduos, como sujeitos, como autônomos. Ainda existiam normas e proibições, claro (se pegassem alguém namorando na escola, ligavam para os pais – todo mundo morria de medo disso), mas foi lá que aprendi a ter crítica em relação aos conteúdos que eram passados e ao próprio modelo de ensino.

Às vezes me arrependo de não ter tirado mais proveito da educação que recebi nessa escola, pois confesso que eu era meio relapsa com os estudos. Sobretudo, sei que fui muito privilegiada. Por mais que a rotina do ensino médio + curso técnico + estágio fosse puxada, eu não tinha que trabalhar 44h semanais para complementar a renda da minha família, como a maioria dos jovens do nosso país. Meus pais me garantiam o básico necessário para que eu me dedicasse somente à escola. Assim, consegui estudar e passei de primeira no vestibular para uma universidade federal (de novo, isso se chama privilégio. Não tem nada a ver com meritocracia, não podemos esquecer em momento algum disso).

Posso não ter absorvido grande parte dos conteúdos passados em sala de aula (Como é que se multiplica frações? Qual a capital do Camboja? Quanto é um mol? Se algum dia aprendi, hoje não me lembro mais), mas com certeza aprendi muito nesses anos todos de escola pública. Aprendi a conviver com as diferenças de raça, religião, classe social. Aprendi sobre desigualdade e privilégios. Aprendi sobre amizade e sobre amor. Aprendi sobre respeito e sobre tolerância. Aprendi a andar com meus próprios passos. Aprendi sobre a vida real, com todas as suas dores e delícias.

Lamento muito que nossa educação pública não seja de qualidade, e isso é algo pelo qual todos nós devemos lutar – votando certo, nos informando, cobrando os responsáveis, nos voluntariando para ajudar. Mas valorizo as lições que aprendi nos bancos da escola pública, mesmo não estando nas cartilhas e nos livros: são valores que carregarei para sempre comigo.

* Imagens retiradas daqui, daqui, daqui e daqui.

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